sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz 2011!



















Sem ter programado nada, mergulhei em dias contraditórios. De um lado, obras em casa que não vão ser concluídas antes do ano terminar. De outro lado, minha solidão se consolida. Uma solidão que não me traz tristeza, mas que forja no meu espírito uma certa letargia diante do inevitável. Não tenho certeza ou convicção de que quero sair dessa situação. Estou estranhamente feliz comigo mesma: por ter sido forte o suficiente para superar meus piores momentos, por continuar lutando no enfrentamento dos meus fantasmas, por nunca ter deixado de sorrir, por ter deixado as lágrimas me renovarem, por ter tido coragem, por não ter desistido, por ter mergulhado no maior sofrimento, depois de um sofrimento que pensara ter sido o maior, e ter conseguido emergir mais sábia.


Pessoas queridas partiram, ressurgiram, chegaram e ficaram.

A terra continuou girando, os terremotos, as secas, as inundações, os incêndios, a natureza toda continuou no seu ciclo vital. Guerras eclodiram ou continuaram.

Cumpri os meus rituais: arrumei os armários e gavetas, livros e escritos, roupas e calçados. Joguei fora uns, doei outros. Fiz balanço pessoal, fiz promessas que vou cumprir como sempre.

De repente, dei-me conta da minha finitude, mas também da minha imortalidade.

Quando eu me for, terei sido feliz, apesar dos pesares. Terei feito rastros...

Que venha 2011!



domingo, 7 de novembro de 2010

Erupção

Erupção
[ceci agapinheiro]

É somente um hábito
não o ato em si
olhar...
sentir o desejo
como se fora um ato concreto
a pele em erupção
recebendo os fluidos
os olhos acariciantes
injetando-se de larvas
vulcânicas
incorporam e abocanham
o corpo no corpo
o esgar do prazer
o vazio depois
 
fechar os olhos
e continuar vendo
fechar os olhos
e continuar sentindo

sábado, 6 de novembro de 2010

Sábado Poético

Amar
Sidney Wanderley

o meu corpo arado por teus lábios.
agrária surpresa, sublime colheita.

a espessura do meu assombro.
o desmoronamento do horizonte.
a recém perdida harmonia das esferas.
o advento furioso da primavera.

de quanta coisa não é capaz um beijo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O pôr do sol é sempre uma festa da natureza.


Zé do Mangue
Upload feito originalmente por ceciverdadeira

O sol se põe--
Na minha lembrança uma tela
de Van Gogh
[ceci matsu]

domingo, 31 de outubro de 2010

Vamos votar!


Cada um de acordo com as suas convicções, por favor. Não se deixem levar pela cabeça dos outros, não tenham medo de demonstrar sua preferência, não se deixem levar por corporativismo, nem manipulação. Sejam inteligentes, votem  pelo Brasil.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Tempo para Amar


Tempo para Amar
ceci agapinheiro

Preciso dos segundos
e dos átomos
Preciso da luz
e dos escuros
Preciso do deserto
das agruras
e da solidão impactante
Preciso dos espinhos
Preciso da inquietação
Preciso duvidar
liberar minha loucura
vestir a carapuça
perder o prumo
Ser diferente
apenas amar

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Cavalinho Branco


tranquilidade
Upload feito originalmente por ceciverdadeira

À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:

mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.

O cavalo sacode a crina
loura e comprida

e nas verdes ervas atira
sua branca vida.

Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos

a alegria de sentir livres
seus movimentos.

Trabalhou todo o dia, tanto!
desde a madrugada!

Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!

Fonte: Cecília Meireles
ID: 828

domingo, 22 de agosto de 2010

Vestígios da Noite

Para refletir

Pergunta:
É possível conciliar as duas dimensões de felicidade: a individual - o que seria particularmente importante - e a coletiva?

Resposta do Leonardo Boff:
Creio que a felicidade resulta de relações que faço boas para comigo mesmo e boas para com os outros, a natureza , o todo. E para com Deus, a realidade mais suprema. Então, a felicidade não pode ser alcançada diretamente, é fruto de coisas que acontecem antes. E o ser humano é um nó de relações. Como diz Carlos Drumond: "Estou diluído dentro da natureza, floresço com os ipês". Essa percepção dá um sentido mais profundo à felicidade. É impossível alguém ser feliz sabendo que seus irmãos estão morrendo de fome e sede, outros estão sendo vítimas dos vendavais que destroem. Mesmo assim, pode criar um núcleo profundo de serenidade e de paz quando integra o negativo pessoal e o negativo das coisas e faz uma síntese cujo efeito é uma felicidade possível aos humanos, em um mundo que, em grande parte, é inumano.
(parte de entrevista concedida à Ana Mary C. Cavalcante, jornal O Povo - Ceará, publicada em 02/08/2010

Procuro despir-me...



"Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras
Desembrulhar-me e ser eu..."

Alberto Caieiro

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Só faltava essa...

Recebi, através do Boletim Informativo do Senador Inácio Arruda, a grande notícia:

"Foi aprovado nesta quarta-feira (04.08), na Comissão de Assuntos Sociais, em caráter terminativo, o Projeto de Lei do Senado – PLS 417/09, de autoria do senador Inácio Arruda, que dispõe sobre aposentadoria por idade para repentistas e cordelistas. O senador Garibaldi Alves Filho foi o relator da matéria. Na ocasião o parecer favorável a aprovação da matéria foi lido pelo relator "ad hoc", senador Paulo Paim. O projeto segue agora para apreciação na Câmara dos Deputados.

De acordo com o projeto, repentistas e cordelistas poderão requerer aposentadoria por idade, no valor de um salário mínimo, durante dez anos, contados do dia 1º de janeiro de 2010, desde que comprovem o exercício da atividade artística, ainda que descontinua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, em número de meses idênticos à carência do referido benefício.

O senador Inácio Arruda justifica sua propositura, lembrando que os repentistas e cordelistas possuem uma importância fundamental na cultura popular e regional brasileira, mas não têm sido devidamente valorizados. Para o senador, a legislação previdenciária não pode deixar passar ao largo essa categoria profissional que, embora informal, muito tem contribuído para a formação da cultura popular do nosso país."

Assessoria do gabinete do senador

Depois não sabem "Eles" porque a Previdência está falida.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

Feliz Dia dos Pais!

Todos os dias são dia de lembrar,
porque o passado não pode ser apagado.
Todos os dias são dia de recomeçar,
porque o passado é somente passado.
ceci agapinheiro

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Debate ou Demagogia?

Leio no noticiário de hoje que a audiência ao debates dos candidatos a Presidente nas próximas eleições brasileiras foi pífia.
Também pudera! Não precisamos ficar ouvindo demagogia para escolher em quem votar. Eu, pelo menos, dispensei. E nenhum debate vai mudar meu voto, que já está definido.

É a vida que segue...

No dia 03 de agosto passado morreu a Juliana, 32 anos de vida. No dia 04 de agosto passado nasceu a Clara. O que tem a ver uma coisa com a outra? O pai da Juliana vem a ser o tio avô da Clara. A avó da Clara vem a ser a tia da Juliana. O encadeamento me leva a refletir sobre a dualidade da vida e da morte. Quando nascemos já começamos a morrer. No entanto, só nos conscientizamos disso quando os nossos entes queridos começam a nos deixar e aprendemos o lado dolorido da saudade. Quando nasce alguém, vislumbramos coisas boas e felizes, sentimos desejos de abraçar, rimos com o corpo e com a alma. Sequer lembramos que um dia aquele serzinho tão belo um dia morrerá. E isto é muito bom, porque se ficássemos a ruminar que podemos morrer a qualquer momento, ficaríamos paralizados e não viveríamos, ou, ao contrário viveríamos de forma sôfrega e desordenada na ânsia de fazer tudo que pudéssemos. Se não conseguirmos compreender, por que nos atormentarmos? E assim a vida segue, um dia de cada vez, um dia após o outro.
Minha vida é hoje! Meu hoje está pleno do meu passado e que venha o futuro. Mas enquanto ele não chega, vivo o hoje.
Vai em paz, Juliana. Que Deus te guarde. Bem vinda, Clara. Que Deus guie teus passos e te abençoe sempre.
Enquanto isso, a tia avó da Juliana, tia bivó da Clara, completará 100 anos no próximo dia 15 de agosto.
É a vida que segue...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

É só isso?

À medida que o tempo passa, que avançamos em anos vividos, vamos assimilando mais e mais que o nosso corpo carnal não é imortal. A cada morte de um ente querido, de um conhecido, pensamos com relutância na morte. Passados alguns dias, esquecemos que vamos morrer, até o dia em que outro ente querido ou próximo morre. Então, novamente perplexos, nos perguntamos: é só isso? Nascemos, crescemos, crescemos, crescemos, e depois morremos? É só o corpo que morre? Há vida depois da morte? Para onde vamos? De onde viemos? São questões sem respostas racionais. As explicações filosóficas ou religiosas nos levam a mais questionamentos e nenhuma certeza, a não ser de que um dia morreremos.

Como bem ilustra a parábola:

"Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. "Muita gente já morreu nessa casa"; "Desculpe, já houve morte em nossa família"; "Aqui nós já perdemos um bebê também." Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.

Voltou a ele e disse: "O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte"."

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Aquela que um dia será

De Mensagens Poéticas
Aquela que um dia será
ceci agapinheiro

Ontem vi a lua
crescendo
suas crateras seu brilho
tão pertinho quase podendo tocar com as mãos...
Mas não podia...
fechei os olhos e voei por uns dias...
amanheci entardeci e nunca anoiteci...
até hoje
quando olhei e vi a lua cheia
a me chamar para celebrar a vida
a minha vida
que enfim me traz não mais enclausurada
livre e sábia
não da sabedoria irrefutável
mas da sabedoria mutável
que prescinde do novo para aprender
que me tem verbo transitivo
Hoje sou aquela que nunca foi
Aquela que um dia será
Hoje eu sou a felicidade
Fortaleza, 30 de julho de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pronta a cair, Pronta a ficar...



Epigrama nº 5

Cecília Meireles

Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.


Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar _ límpido e exato.


E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do ato.


*******************************************


Eu sou essa gota que a Cecília Meireles tão magistralmente descreve, sempre me equilibrando e resistindo, pronta a cair, pronta a ficar...

Imagem: http://www.sridoo.tk/

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Não aguento mais...

Não aguento mais tanta violência. Viver, sentir, comer, dormir, amar, rezar, nunca mais foram atos normais.
Não aguento mais a mídia, que busca escândalo a qualquer preço em busca de primazia de audiência.
Por conta disto, vários casos ficam insolúveis e as pessoas sequer se indignam, desde que não seja com elas.
É lamentável,que casos como o de Elisa Samúdio tenham sido conduzidos de forma tão desastrada, a ponto de botar a perder todas as convicções.
É lamentável que advogados, em nome da grana, ajam como verdadeiros cúmplices dos assassinatos em voga, criando situações e ramificações espúreas, para colocar em liberdade seres desprezíveis, em detrimento de uma punição exemplar, que seria o lógico.
É lamentável que assim, se alimente a violência em todos os graus.
Há alguns anos atrás, vivenciei um assassinato em família, cujo desfecho foi direcionado, como o da Elisa Samudio, para que nunca se achasse o corpo e a arma do crime.
Registrei o desaparecimento. A polícia orientou a esperar as 48 horas, para só então tomar alguma atitude. Não obedeci e fiz o papel de detetive e consegui pegar um dos assassinos, que levou ao cúmplice, ao corpo e à arma do crime, dentro de 24 horas, suficientes para a prisão em flagrante.
Se eu não tivese feito o papel da polícia, nada teria sido esclarecido. O que foi importante: o elemento surpresa dos assassinos, que não pensaram que seriam cassados antes das 48 horas, e a consequente prisão em flagrante com confissão integral, aproveitando essa fragilidade dos mesmos.
É fácil, muito fácil saber, o que está errado, não é mesmo?

quarta-feira, 30 de junho de 2010














Não sei porque
mas de qualquer forma parece
que muitas pessoas habitam meu pensamento.

Takuboku Ishikawa

quarta-feira, 23 de junho de 2010

De como a natureza me fascina


das antigas
Upload feito originalmente por ceciverdadeira

Numa tarde, alguns dias já passados, resolvi ir ao Zé do Mangue par tirar fotos, somente. Não imaginava que iria ficar em transe com a luz daquela tarde e daquele momento, com a brisa acariciante que me envolveu, com a quietude, com os sons.
Foi uma tarde fascinante, que nunca esquecerei.

sábado, 19 de junho de 2010

Sábado Poético

Soneto da Perdida Esperança
Carlos Drumond de Andrade,
in Brejo das Almas

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre o meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

como um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Viagem do Elefante - José Saramago

Trata-se de um magistral conto, a começar pelo tamanho, o exato tamnho de um romance. O Autor afirma que se não tivesse sido convidado por Gilda Lopes da Encarnação a falar para os alunos da Universidade de Salzburgo, se não tivesse sido convidado para jantar no restaurante O Elefante, o livro não existiria.
No  restaurante, umas pequenas esculturas de madeira dispostas em fila sendo a primeira representativa da Torre de Belém, em Portugal, seguida de outras representativas de edifícios e monumentos europeus, sugerindo um itinerário,suscitaram a curiosidade do escritor, o que o levou a um questionamento sobre o que era aquilo. A resposta veio alimentar a sua genialidade e imediata construção de um roteiro para uma história recheada de considerações sobre a natureza  humana e elefantina, além de uma descrição fidedigna da Europa naqueles anos de 1551 e 1552.
Tudo começa quando dom João III e sua mulher, Catarina d'Austria resolvem oferecer o elefante como presente de casamento ao arquiduque austríaco Maximiliano II, recém casado com a filha do imperador Carlos V.
A viagem  para levar o elefante ao destino dura meses e passa por Portugal, Espanha e Itália e parte da Áustria até a capital, Viena. Misturando fatos históricos e imaginários, o extraordinário José Saramago descreve o que foi aquela travessia eivada de contratempos naturais e movida pelo espírito forte de homens determinados a cumprir a sua missão. No entremeio dessa prosa poética, o autor discorre sobre as pessoas, os animais, as cidades, o trabalho, sobre a realeza e as forças da natureza, além de questões puramente filosóficas.
Na chegada a Viena, a descrição da cena em que o elefante pega e levanta com a tromba uma menina que se precipitara correndo em sua direção, evitando que a mesma seja esmagada pelas suas patas, e a entrega nos braços dos pais assustados e comovidos. Aí, reside o fato pelo qual o elefante nunca mais foi esquecido, apesar de sua morte dois anos depois. São fatos históricos devidamente registrados contados de uma forma muitíssimo inteligente.
Uma leitura imperdível.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ferreira Gullar recebe o prêmio Camões 2010

Presto-lhe uma homenagem, transcrevendo o seu,

Recado

Os dias, os canteiros,
deram agora para morrer como nos museus
em crepúsculos de convalescença e verniz
a ferrugem substituída ao pólen vivo.
São frutas de parafina
pintadas de amarelo e afinadas
na perspectiva de febre que mente a morte.
Ao responsável por isso,
quem quer que seja,
mando dizer que tenho um sexo
e um nome que é mais que um púcaro de fogo;
meu corpo multiplicado em fachos.
Às mortes que me preparam e me servem
na bandeja
sobrevivo,
que a minha eu mesmo a faço, sobre a carne da perna,
certo,
como abro as páginas de um livro
-- e obrigo o tempo a ser verdade.

in, O Vil Metal (1954-1960)

Não há mais o que dizer...

domingo, 30 de maio de 2010

Leite Derramado

Acabei de ler "Leite Derramado", do Chico Buarque. A sensação que eu tinha quando lia, era que estava lendo José Saramago, com seus parágrafos enormes seguindo uma ordem quase aleatória. Gostei da leitura e , abaixo, transcrevo algumas frase e ditos interessantes ou apenas espirituosos ou realistas:
"... o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos."
"... naquele tempo a gente era veloz e o tempo se arrastava."
"É a neve, ora bolas, disse ele muito sério, papai fazia questão de nunca sair do sério. Com uma miniespátula separou o pó branquíssimo em quatro linhas, depois me passou um canudo de prata. Mas não se tratava desa porcaria que idiota cheira por aí, era cocaína da pura, que só tomava quem podia."
"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a pepelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto."
"Era um dia de sol e do alto da duna eu contemplava o trecho mais delgado da restinga, uma linha de branquíssima areia que o oceano não tragava por capricho, ou por piedade, ou por desvelo maternal ou por sadismo. As ondas espumavam simultaneamente, à direita e à esquerda da faixa da areia, era como uma praia diante do espelho."
"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa de sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo."
"As pessoas não se dão ao trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro."
"...cada mulher tem uma voz secreta, com melodia característica, só sabida de quem a leva para a cama."
"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida."

sábado, 29 de maio de 2010




















Perguntas
Pádua de Queiroz

Como posso ser feliz
se você só vive triste?
Como posso ser sincero
se você mente pra mim?
Como posso ser teu hoje
se ontem você me esqueceu?
E amanhã o que serei
sem você nos braços meus?

Como posso te falar
se você não me escuta?
Como posso ser tua vida
se você não quer viver?
Se você diz que me ama
então por que me faz sofrer?
Será mesmo que é melhor
querer e depois perder?

São perguntas que eu faço
e não consigo responder.
Porque eu só tenho em mente:
você, você, você...



Num dia como outro qualquer, com uma pressa qualquer eu precisava lavar o carro rapidamente, só por fora. Então escolhi um lava jato vizinho aqui de casa. Por não ter firmado uma clientela habitual, ainda, estava disponível para o meu desejo imediatista. Mas o melhor de tudo: Nem senti o tempo passar, porque um dos empregados se aproximou puxando conversa. Era um cordelista e poeta, cheio de sonhos, que também desenha e imprime seus versos de forma bem artesanal e distribui com absoluto desprendimento, acredito que enquanto a fama não vem.
Ele nasceu em Baturité, Ceará e escreveu um cordel, polêmico, segundo ele, Quem Acendeu Lampião.

domingo, 23 de maio de 2010

A Esperança é a primeira que nasce.














Domingo, o dia da semana preferido por mim. Leio jornais, revistas e livros acumulados durante a semana, ou simplesmente esquecidos. Se ensolarado, vou à praia, caminho, jogo conversa fora. Ou, como domingo passado, fico em casa me curtindo, curtindo a casa, as cachorrinhas... Vesti amarelo, intuitivamente, porque estava me sentindo cheia de energia. Na varanda, observo a movimentação da criançada pelo condomínio, quando um (mais ou menos nove anos de idade) me aborda e diz que a minha camiseta é esquisita, porque tem um machado cortando (ferindo) uma planta.



Não disse nada, sorri somente. E talvez tenha perdido uma oportunidade única de pedir para que ele lesse em voz alta a inscrição, olhasse bem a imagem, partindo para uma explanação sobre vários assuntos que permeiam nossa vida em sociedade, tais como: as aparências enganam, não devemos ter pressa para julgar, devemos pensar antes de falar, analisar os fatos antes de opinar etc., etc., etc.



Afinal a tal "camiseta" fala de esperança, de fé e de força inabalável mesmo quando o sofrimento nos corta ao meio, nos seca a seiva vital, pois ela teima em estar presente no nosso coração, em nos puxar para a vida e não para a morte. E ele é apenas uma criança, e está plenamente receptivo ao aprendizado. Além do mais, uma oportunidade perdida não volta mais. Mas, como a esperança é a primeira que nasce, quem sabe um dia uma nova situação ocorra, então não perderei a oportunidade.

sábado, 22 de maio de 2010

Sábado Poético



















Da Série Problemas Pessoais

meto a cara na manhã
empoeirada da metrópole,
arrasto comigo um poema
em busca de palavras exatas
para ser tecido.

jogo o corpo na manhã
cinzenta da cidade
com a cara lavada de perspectivas
e o coração que é um largo lençol
de cicratizes.

navego longamente na manhã
urbanotrópole
com o saco cheio de sair pela traseira da vida.
Salgado Maranhão, in Mural de Ventos, José Olympio Editora

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Play


Uma peça ruizinha pra caramba. Os atores não estão bem, ou será que não são bons? Exceto a Maria Maya. Esta muito bem, num "time" preciso. Não gostei do texto e achei muito apelativo, uma tentativa de fazer rir que não soou espontanea. Do cenário transmutante, ágil e simples eu gostei. A cada tomada de cena uma construção nova. O quarto que não se vê, mas está muito presente, pelo transbordamento do apelo sexual, é um bom insight. Imagino que todos os expectadores ficaram imaginando como seria.


Uma coisa legal são os depoimentos projetados como pano de fundo, bem construídos, instam as pessoas a falar de suas intimidades, o que acaba sendo um pretexto para uma reflexão sobre a vida íntima dos seres sociais que somos.

O melhor da noite foram as companhias, o ambiente universitário, e o depois, a esticada para comer (comida) à beira mar, num restaurante lindo, com uma comida saborosíssima e uma brisa gostosa a nos envolver.

E era domingo, o meu melhor dia da semana.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Passando pela Bienal...



Dei uma passada rápida pela Bienal Internacional do Livro. Trata-se da 9ª. Um nome pomposo para uma apresentação muito descuidada, livros caros, promoções somente de produtos populares ou pouco interessantes. São livros e mais livros dispostos como num mercado, sem nenhum requinte de organização, do que se deduz o pouco valor dado a eles pelos livreiros e/ou organizadores da mesma. Este ano a homenageada é a nossa Raquel de Queiroz e seus cem anos de glória. A primeira mulher a adentrar a Academia Brasileira de Letras não tem merecido muito cuidado por aqui. Sua estátua fica exposta numa praça, que, não obstante ao lado da Secretaria de Cultura, é um antro de desocupados, muito suja e mal cheirosa. Ainda bem que o que se escreve permanece.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Quarta temática: Sexo



Ligo o micro. Na minha página inicial, Yahoo, a chamada: A quarta temática de hoje é sexo. Clico lá e vejo: Críticas à Playboy da Tessália, e leio os comentários mais exdrúxulos. Todos somente querem falar mal da vida alheia. E se se pode juntar sexo e fofoca, a coisa fica melhor ainda. Desde tempos remotos, essas duas coisas, fofoca e sexo, movimentam a vida social. Impressionante como as pessoas se julgam acima do bem e do mal para comentar sobre a vida de outrem. Quem vê, ouve e lê, tem a nítida impressão de que todos os "comentaristas" são santos. Aliás, o que é ser santo? É não fazer boquete? Não fazer sexo anal? Não praticar as posições do Kama Sutra? Em suma, não ter vontade própria?
E o que é melhor, o que dá mais tesão? Falar da vida alheia? Bisbilhotar a vida sexual do Outro? Ou fazer sexo e viver a vida do jeito que se gosta? Pimenta no __ dos outros...
Me poupem. Vão procurar o que fazer.

sábado, 6 de março de 2010

Sábado Poético

O Chamado das Pedras
Cora Coralina

A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de a muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.

Sozinha...
Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha...
Na estrada deserta,
sempre a procurar
o perdido do tempo
que ficou para trás.

Do perdido tempo
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta... Volta... Volta...
E os morros abriam para mim
imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
que ouvia na distância
Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo pagou
das velhas cumeeiras:
Porque não voltou...
Porque não voltou...
E a água do rio que corria
chamava... chamava...

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa, deserta.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Simples assim...

Ser simples é uma postura de vida. É uma decisão que tomamos de descomplicar. Não significa contentar-se com o mínimo, pois, isso é ser simplório. Li um artigo do Eugênio Mussak sobre o assunto, que lista com muita propriedade, as principais carcaterísticas das pessoas simples:

  • "são desapegadas: não acumulam coisas, fazem uso racional de suas posses, doam o que não vão usar mais.
  • são assertivas: vão direto ao ponto com naturalidade, mesmo que seja para dizer não, sem medo de decepcionar, não enrolam, nem sofisticam o vocabulário desnecessariamente.
  • enxergam beleza em tudo: em uma flor no campo, em um quadro de Renoir; em uma modinha de viola e em uma sinfonia de Mahler; em um pastel de feira e na alta gastronomia.
  • tem bom humor: são capazes de rir de si mesmas e, mesmo diante das dificuldades, fazem comentários engraçados, reduzindo os problemas à dimensão do trivial.
  • são honestas: consideram a verdade acima de tudo, pois ela é sempre simples e, ainda que possa ser dura, é a maneira mais segura de se relacionar com o mundo."

Muitas das vezes que amei fui traída. Não falo da traição física, mas da traição do coração, que leva ao fingimento, à falta de lealdade, à falta de benevolência.

Poderia ter colocado a culpa nos traidores, eximindo-me de culpa. Poderia ter colocado toda a culpa em mim, auto afirmando que não soube amar.

Mas nada disso seria real, pois tudo começou na infância, quando minha percepção de mundo era o meu núcleo familiar, quando meus amores eram meu pai e minha mãe. E continuou vida afora, com a cicratiz bem visível, que ao longo do tempo foi esmaecendo e hoje está quase invisível.

Em cada fase tive uma nova compreensão e o coração foi abrandando pelo amor que nunca deixei de sentir. Hoje posso dizer que algumas vezes não fui traída, mas senti-me traída. Outras vezes fui traída, sim, mas ninguém tem culpa. A vida entrelaçou muitos sentimentos e deu no que deu na minha vida.

Hoje posso dizer que sou feliz, simplesmente feliz, ainda a procura de mais...

A Procura
cora coralina

Andei pelos caminhos da Vida.
Caminhei pelas ruas do Destino --
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Por quê?


Procrastinar é a minha cara. Mas a procrastinação de minha parte é seletiva. Somente uso desse recurso quando alguma coisa me desagrada, me incomoda ou me deixa desconfortável. É assim quando alguém me fere de algum modo. Meu primeiro impulso é reagir. No segundo, peço calma a mim mesma e adio a decisão de esclarecer as coisas para um momento mais apropriado. No terceiro, momento, que já não é impulso, normalmente passado um bom tempo, desisto de tomar qualquer atitude. As coisas ficam como estavam e eu perco a chance de mudar para melhor a minha imagem. Tudo porque não suporto discutir e, hoje em dia, qualquer pensamento divergente é considerado um contrasenso ou uma traição.

É realmente difícil, muito difícil, encarar as próprias fraquezas e admitir perante outrem que não somos o centro do mundo, sequer infalíveis.

terça-feira, 2 de março de 2010

O calor está insuportável. Nem o vento dá as caras por aqui. A piscina continua em reforma. Meus dias correm num ritmo morno, sem tesão. Constantemente, o suor me escorre pelo rosto e corpo molha a minha roupa, que gruda no corpo, mostrando-o como se nu estivesse. Este corpo que um dia já foi quase perfeito, hoje sofre com dores intermitentes ao menor contorcionismo a que o submeto. Sim, continuo a maltratá-lo com mil e um malabarismos e longas imobilidades. Sonho com veredas desconhecidas e silêncios terriveis, com sombras e silhuetas macabras. Uma aragem fresca traz um conforto térmico tão breve quanto a chuva rala que vem em seguida. Um dia que não acaba.

Inacabado
ceci agapinheiro

meus pensamentos
constroem muros
meus olhos
mostram enigmas
meu corpo
rompe o cerco da gravidade
num bailado louco desvairado
tento esvasiar minha mente
fecho os olhos para não ver
ou sentir qualquer emoção
porém um precipício se abre
tragando-me vertiginosamente
do lado de dentro
escuro e silêncio de morte
do lado de fora
inquietação e desejos

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010



Ápice
ceci agapinheiro


Um céu azul rajado de brancas nuvens
que se expandem como o universo
dando idéia de não terem fim
no meio uma lua grávida de vida
crescente...

Eu, mulher criança rajada de cinza
de pernas enraizantes e mãos deslizantes
que dão idéia da infinitude
dos desejos que me são inoculados
num crescente...

A tarde passa mansamente
aos últimos reflexos do sol
transmutante...
Vira noite devagarinho
enquanto a lua passeia
brilhante...

Seus cabelhos espalhados
sobre o travesseiro refletem
o brilho da vida que passa
e nunca se acaba
embora se morra de amor
em todos os átomos de tempo

Eu, mulher criança já morri.

Fortaleza, 26 de fevereiro de 2010.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Alhos e bugalhos

Exercício na Oficina. Fazer um haicai baseado numa vivência, com o tema "suor, suando, suar".
Herdei do meu pai um descontrole nas taxas de triglicérides. Por isto como alho junto com a comida na hora do almoço.

o suor
com cheiro de alho--
saudade do pai
ceci matsu

comigo, tudo bem

Entender as pessoas com as quais convivemos é um desafio diário. A comunicação tem duas vias: a pessoa que fala e a pessoa que ouve. Basta uma não entender a outra, ou querer melar a comunicação da outra, para que não exista comunicação. Não adianta eu dizer A, se o meu ouvinte entende B. Então, muitas vezes perdemos tempo somente explicando o que queríamos dizer e a outra pessoa explicando porque entendeu B.
Quando o desentendimento for de boa fé, tudo acaba bem.

"Vivemos num tempo em que as coisas
desnecessárias são as nossas únicas
necessidades,

Hoje, sabemos o preço de tudo e o
valor de nada."

O retrato de Oscar Wilde - fragmentos - Legrand

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A vida secreta das abelhas

Assisti à um dvd: A vida secreta das Abelhas. Chorei muito, muito. É uma história sobre a rejeição e os seus efeitos na vida de uma pessoa. En passant, fala-se sobre violência contra a mulher, preconceito e violência contra os negros, esquisofrenia, as abelhas etc. Trata-se também do poder regenerador do amor, da serenidade e do trabalho. Fala-se de vida e de morte. Um ciclo completo.
Em muitas cenas, senti-me retratada. Em outras, pude constatar como sempre temos um modo peculiar de reagir às tristezas e à pressão da vida. Todos os sobreviventes, construímos um "muro das lamentações", por isso sobrevivemos.

"Não se governa a vida com a verdade
ou com as intenções.

A vida é uma questão de nervos, de
fibras, de células de formação lenta,
onde o pensamento se aloja e a paixão
esconde seus sonhos."

O Retrato de Oscar Wilde - fragmentos - Legrand

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O eco da música de outra pessoa...

Homenagem para uma pessoa da treva, que nem me conhece e faz fofoca com o meu nome. Essa pessoa está sendo injusta comigo. Talvez nem esteja sendo injusta, já que pode estar agindo assim de caso pensado.

Boa influência é coisa que não
existe. Toda influência é imoral...
imoral do ponto de vista científico.

Influenciar uma pessoa é emprestar-lhe
a nossa alma. Essa pessoa deixa de ter
idéias próprias. de vibrar com suas
paixões naturais.

As suas qualidades não são verdadeiras.
Os seus pecado, vêm-lhe de outrem.

Essa pessoa torna-se o eco da música
de outra pessoa, intérprete de um
papel que não foi escrito por ela.

O Retrato de Oscar Wilde, fragmentos, Legrand

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

As estrelas brilham

nenhum vento:
parecem esculturas
as flores do jardim
ceci matsu

Ontem à noite, fui ao jardim, observar em volta, numa postura zen, para tentar encontrar os caminhos do haicai. Produzi este haicai. Recebi a aprovação crítica do Prof. Franchetti.

confinado
o homem olha pro céu--
as estrelas brilham
ceci matsu

Quanto a este, desprovação total. A mentira tem pernas curtas: o confinado, sou eu, não confinada, mas sem poder sair, paralizada pelos meus medos. Porém, basta um olhar para o céu, um encontro com as estrelas brilhantes, para tudo mudar e a esperança voltar ao meu coração.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Cheiro de Jasmim

Pela manhã
o cheiro do jasmim
mesmo sem orvalho
ceci matsu

Entrei numa oficina para a prática de Haicai. Uma prática que me atrai, por despertar em mim uma emoção estética. O haicai, segundo o Prof. Paulo Franchetti, um estudioso do assunto:

"Haicai é a arte verbal de, com o menor número de elementos e com a maior discrição, produzir emoção poética profunda. Do ponto de vista da forma, haicai é um texto em três versos breves, centrado numa sensação ou numa percepção pontual, escrito em linguagem comum, direta, de vocabulário simples e sintaxe usual, sem metáforas nem personificações e sem uso ostensivo de aliterações, assonâncias e rimas. O haicai, tal como o entendemos nesta lista, não traz juízo ostensivo de valor nem é sentimental, não faz proselitismo nem busca fornecer ao leitor uma lição moral; pelo contrário, valoriza a modéstia e a contenção, a piedade e a solidariedade como atitude frente ao mundo."

Estado mental que deriva do haicai: humor, a liberdade, a simplicidade, a solidão, a abnegação, a gratidão, o amor, a coragem, a brevidade, não intelectualidade, não contraditoriedade, não moralidade e materialidade.

O haicai acima começou assim:
Pela manhã
nenhuma gota de orvalho
Mas o jasmim cheira.
Evoluiu assim:

Pela manhã
nenhuma gota de orvalho
Só o cheiro do jasmim

Vem da vivência de dias secos e calorentos por aqui, sem chuvas, portanto sem orvalho nas plantas. No jardim, um jasmineiro forma uma cerca divisória. Só tem folhas e um único jasmim, pequenino, e muito cheiroso.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Pra vocês, minha paz.

Há pessoas que vivem cheias de frustrações e descarregam sobre os outros. E o que é pior, muitas vezes posam de boazinhas e tem uma imagem social irretocável, o que estimula mais e mais o tal comportamento maléfico. Porém, passam o tempo a envenenar a vida alheia com o negativismo, a inveja e o egoísmo desmedido, o ódio e a prepotência. Julgam-se perfeitas, nunca erram, preocupam-se com a vida alheia e esquecem da própria.
Deveriam, sim, exercitar a curiosidade natural do ser humano, buscando aprender mais, estudando e pesquisando, buscando mais sabedoria, o que levaria ao amadurecimento e, em consequência a um estado de felicidade e vivência do tempo com dignidade e gratidão, pelo que nos é oferecido no nosso curto tempo de vida.
Já que somos viajantes nesse mundo, nada nos pertence, que possamos enriquecer cada dia vivido com novas descobertas e aprendizado.
Portanto, pessoas assim: Esqueçam que eu existo, porque estarão perdendo tempo e se enraivecendo cada vez mais com as minhas atitudes ou falta de atitudes e se envenenando mais e mais com o próprio veneno.
Pra vocês, a minha alegria e a minha paz.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Aqueles que pedem JUSTIÇA serão justos?

Crimes acontecem diariamente ao nosso lado e não ligamos porque não é conosco. Somente o que nos afeta pessoalmente consegue nos tirar da letargia em que mergulhamos.

Mas de vez em quando, principalmente quando a vítima é uma criança branca, loura e bonita, a comoção toma conta da massa, que de repente se mobiliza e se indigna e pede justiça com todo o vigor. Quantas crianças negras e miseráveis são estupradas e abusadas e ninguém se comove, ninguém liga, ninguém vê, ninguém ouve, ninguém faz nada.

O próprio estuprador e assassino confesso foi abusado quando criança e ninguém ligou. A nossa indiferença e falta de compaixão tem sido a pedra que rola e agrega mais e mais miséria, inchando até que um dia explode, sem que tenhamos controle. Nós deveríamos nos indignar sempre, inclusive quando esses falsos moralistas que invadem a casa do assassino e roubam e depredam, e exercitam seu ódio, esquecendo que lá mora uma mâe, que sofre mais do que todo mundo. Nós deveríamos nos indignar, mas não deveríamos odiar.

O ódio embrutece a alma, o ódio cega e tira a lucidez mental, o ódio corrompe toda a nossa estrutura afetiva e nos tira a dignidade. O ódio nos leva a praticar atos, tão ou mais indignos do que os atos praticados pelos bandidos e assassinos.

Que tal, exigir das autoridades o rigoroso cumprimento da lei para todos? Que tal eleger pessoas diferentes dessas que estão aí roubando e adotando outros comportamentos indignos? Que tal irmos à luta para mudar as regras que não estão dando certo? Que tal cobrarmos das autoridades o cumprimentos de todas as ações saneadoras de curto e de longo prazo. Em vez de assistir um filme contando a vida de um fulano, falsificada em muitos fatos para comover a opinião pública, vamos meditar que as nossas vidas dariam um filme mais comovente do que aquele, mas não precisamos nos fazer de vítimas.

Precisamos ser honestos, solidários com o sofrimento, principalmente dos mais desfavorecidos. Podemos dar esmolas num momento crucial, sim. Mas se não oferecermos trabalho, nada teremos feito, pois sem condição de sobrevivência própria, não se consegue viver. Que tal cobrar das autoriadades as ações necessárias ao fortalecimento empresarial para criar vagas de trabalho, sem aumentar mais ainda as despesa públicas?

Que tal?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Verdade?

Uma coisa é o que é, e não o que se diz ser. A medida da verdade(como correspondência) é o ser ou a coisa, não o pensamento ou o discurso. No entanto, o enunciado da verdade pode ser sobejamente manipulado por quem enuncia e também por quem ouve, dependendo do preparo intelectual ou moral de um ou de outro.

Em sociedade as pessoas enquadram-se nos padrões estabelecidos para serem bemquistas e admiradas. As que não se enquadram são duramente questionadas e discriminadas. As minorias organizam-sem em guetos não porque querem, mas porque são levadas a isso, em face do isolamento que lhes é imposto.

As famílias são projeções da sociedade. E no seu núcleo ocorrem, em menor escala, os mesmos fenômenos ocorridos em larga escala na sociedade.

A verdade, aqui, como lá, pode ser manipulada, inclusive propositalmente, para atingir uma finalidade pérfida ou para alimentar um sentimento igualmente pérfido, como a inveja e o egoísmo.

A manipulação da verdade pode cegar, a ponto de se pensar ser verdade uma mentira formulada com frequência. Mas a verdade permanece verdade. Isso é importante, mas não garante que um dia ela será resgatada.

Em minha vida tenho que lidar com esse fato todos os dias. Quando leio os jornais diários, quando assisto à TV, quando me relaciono com a família e os amigos. E me pergunto sempre: qual o prazer de incorporar uma mentira como verdade, principalmente se tal ato vai prejudicar a vida de alguém, ou de uma comunidade?

*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*

A finalidade da vida é, para cada um
de nós, o aperfeiçoamento, a realização
plena de nossa personalidade.

Hoje, cada qual tem medo de si próprio:
esquece o maior dos deveres: o dever
que tem consigo mesmo.

Naturalmente, o homem é caridoso.
Dá de comer ao faminto, veste o
maltrapilho. Mas a sua alma é que
sente fome e anda nua.
O Retrato, de Oscar Wilde, fragmentos. Legrand

domingo, 10 de janeiro de 2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

O Primeiro Livro


Ontem, fui a uma palestra num Centro Espírita a convite de uma amiga. Falou-se, claro, de re-encarnação, crença maior do espiritismo. Lembrei-me do texto abaixo, escrito pela Clarice Lispector, quando cronista de um jornal. Escrito com um tom de intimidade sem par, dando a impressão de uma conversa informal, sem cuidados de expressão literária, ou até de revisão.

O Primeiro Livro de cada uma de minhas Vidas
Clarice Lispector

Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do primeiro livro de cada uma de minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vez: criança quase aprende de cor e, mesmo sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A história do patinho que era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele não era pato e sim um belo cisne. Essa história me fez meditar muito, e identifiquei-me com o sofrimento do patinho feio -- quem sabe se eu era um cisne?
Quanto a Aladim, soltava minha imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era crédula: o impossível naquela época estava ao meu alcance. A idéia do gênio que dizia: pede de mim o que quiseres, sou teu servo -- isso me fazia cair em devaneio. Quieta no meu canto eu pensava se um dia um gênio me diria: "Pede de mim o que quiseres." Mas desde então revelava-se que sou daqueles que tem que usar os próprios recursos para terem o que querem, quando conseguem.
Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narizinho. Já contei o sacrifício de humilhações e perseveranças pelo qual passei, pois já pronta para ler Monteiro Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina, cujo pai tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se vingara tornando-se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler aquele livro, fez um jogo de "amanhã venha em casa que eu empresto". Quando eu ía com o coração literalmente batendo de alegria, ela me dizia: "Hoje não posso emprestar, venha amanhã." Depois de cerca de um mês de venha amanhã, o que eu, embora altiva que era, recebia com humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele primeiro monstrinho da minha vida notou o que se passava e, um pouco horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo momento me fosse emprestado o livro. Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.
Em outra vida que tive, eu era sócia de uma biblioteca popular de aluguel. Sem guia, escolhia os livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro chamado O Lobo da Estepe, de Herman Hesse. O título me agradou, pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura, sim, mas outras aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos dos 13 aos 14 anos fui germinada por Herman Hesse e comecei a escrever um longo conto imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura.
E outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva, porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar.Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada eu pensava: Mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield.
in, Aprendendo a Viver, Editora Rocco

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Notícia da Casa


Tenho saudades não sei de quê... Involuntariamente apaguei da minha memória toda a minha infância, ao lado da mamãe e do meus irmãos. A lembrança mais remota que tenho é de quando tinha oito anos de idade e seguia com minha tia Cecy para um Internato no Rio de Janeiro. Aliás, um pouco antes, quando me despedi da mamãe e chorava dizendo que não queria ir. Mas ao contrário do que era de se esperar, tenho ótimas recordações do tempo de internato. Fiz amizades lindas com alunas e com os mestres e freiras que passaram por mim. Depois de um período de quase dez anos, novamente contra a minha vontade, tive que dizer adeus a todos e tudo que planejara construir. Voltei, agora como forasteira, uma estranha na minha terra, na minha família. Dessa vez meu coração já não suportou tão bem, e me transformei numa criatura um pouco ranziza. E me guardei a sete chaves. Somente Deus conhecia o que se passava na minha mente e no meu coração. Dessa inadequação nunca mais me curei. Sinto-me sempre desconfortável na vida. Como caramujo, levo minha casa pra onde vou e vira e mexe estou me escondendo bem lá dentro, tentando resguardar-me dos sofrimentos.
Mais um dia nublado por aqui...

Notícia da Casa
Ruy Espinheira Filho

A casa não se descreve:
sente-se. Aqui permanecem
todos: dos que não vieram
àqueles que já partiram.

Na casa jamais se apaga
a luz com que me fitaste
(porém em ti, não: em ti
era só vidro, quebrou-se).

A casa se arquiteta
a si mesma, cada vez
mais habitada, enquanto
sangro paredes e espaços.

E cresce. Até não deixar
sinal no meu peito imóvel.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"...o terrível é o tempo"

Ficar de bem com o Passado tem sido a minha batalha mais íntima. Combater o sentimento de rejeição por uma conduta desastrada dos meus pais, sem no entanto deixar de amá-los. Tentar me colocar no lugar e no tempo deles para perdoá-los é fácil. O difícil tem sido limpar a cicatriz, que sei, nunca desaparecerá, mas um dia ficará tão imperceptível que não me incomodará mais. Conviver com as críticas e julgamentos idiotas dos que não conseguem aceitar outra verdade que não seja a sua própria tem sido a luta mais insana nesse quesito. Mas fiel ao princípio de que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, não desisto e continuo a viver o amor e o perdão, tentando e tentando não repetir com o meu filho esses atos insanos.
Subverter é a minha meta. Então, em vez de me enquadrar nos padrões, busco as soluções mais criativas dentro das minhas possibilidades. E tenho alcançado vitórias com muita dificuldade e tão lentamente, que às vezes, inúmeras vezes, tenho vontade de desistir, mas como já afirmei anteriormente desistir não faz parte dos meus planos.

III

O terrível é o tempo, a minha forma
de não ver o contínuo
real, os confundidos no presente
vários tempos que o mesmo tempo forja.
O abranger sucessivo
das coisas é que impede a minha urgente
vontade de entender o que em mim sente.
De olhos postos na vida e na esperança,
comtemplo com espanto esse inclinar-se
de frondes e de sombras
sobre a erva. Sei de mim que sou grave,
e tenho intensidade
sem luxúria, e o sentido que busco
de mim e do que vive é esse profundo

não saber minucioso de luz vária.
O fino amor que sinto
resiste à fria pedra, à dura gema,
e se exercita na constância da água;
e cresce enigma, absinto,
ora dilui, ora dilata a pena.
Esmorece? edifica? em forma lenta
permite, e não, o anelado contato
com o que é, sem atrever-se ao mínimo
movimento de entrega.
O gesto volta em ondas para dentro:
tenho o rosto tranquilo e o peito ardendo.
Mas quem salva do tempo esse passivo
contemplador do amor e do infinito?
- Marly de Oliveira, in Contato, ed. Imago -

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Um desejo para 2010

O período que antecede o Natal até a passagem do Ano Novo é muito estressante para mim. Barulho por todos os lados, filas pra tudo, tempo escasso, transportes coletivos lotados, engarrafamentos impossíveis, até as praias ficam tão cheias. As missas e os cultos costumam ter mais frequencia do que o normal.
Estou precisando urgente de silêncio. Quero o silêncio dos sons e ruídos do dia a dia e o silêncio da alma. Preciso aquietar o meu coração e a minha mente. Domingo não fui a casa da mamãe. Estive sozinha para tentar captar o vazio do silêncio, mas meus pensamentos não deixaram.
Um desejo para 2010: Aprender a esvaziar-me.

domingo, 3 de janeiro de 2010


O Dia está nublado, o sol ainda não apareceu, estou nublada também.
Minha vida tem sido regida pelo sol, pelo seu brilho, pelo seu calor, pela sua alegria. O suor escorrendo em gotas cristalinas, emanam meu cheiro e minha energia para o mundo. Sem o brilho do sol eu me apago e libero os fantasmas que me habitam. O interessante é que também atraio os fantasmas dos outros, como os fantasmas daquela amiga, que está vivendo um drama familiar com a decadência da sua relação amorosa. Entre os fios da linha telefônica suas palavras parecem raios e trovões abafados pelo sentir feminino. Seu choro contido, baixinho para que não seja ouvido ao derredor, soa como uma cachoeira da seca, um filete de água pedindo socorro aos deuses da natureza para viver um pouquinho mais.
Ao final, estou esquisita, com um cansaço, uma dor, uma lembrança, outra lembrança, outra dor, muita dor...
Refugio-me no meu gabinete biblioteca e escrevo para espantar a dor. Olho ao redor como se estivesse fazendo um foto panorâmica, lá em cima à esquerda (do lado do coração...será coincidencia ou sincronicidade?) uma singela bonequinha segura uma plaquinha de madeira com a inscrição: Eu te amo!
Pela janela o azul vaza do céu e o sol insinua-se aos poucos.
Bom domingo!

sábado, 2 de janeiro de 2010

2010 - Centenário de Rachel de Queiroz





"Para celebrar Rachel Além das suas primeiras crônicas republicadas, Rachel de Queiroz será lembrada pelo Grupo de Comunicação O POVO em lançamento de livros e festival gastronômico
Além do Grupo de Comunicação O POVO, a Academia Brasileira de Letras homenageia a escritora cearense (Foto: google)

Dezembro 00h32min 2009] Abrir espaços para a contemplação e apreciação de Rachel de Queiroz. O presidente da Academia Brasileira de Letras, o professor Marcos Vinicios Vilaça, acredita que essa é a principal contribuição que O POVO proporcionará com as republicações. Vilaça conta que a ABL também organizará ações de celebração do centenário da escritora cearense e diz que a instituição está à disposição para colaborar com as comemorações do Grupo de Comunicação O POVO. ``Dona Rachel foi uma pessoa muito ativa e preponderante na Academia. Atuou como conciliadora a despeito do seu temperamento forte. A importância ultrapassa o fato de ela ter sido a primeira mulher na Academia, mas se fincou pela atividade na vida pública brasileira``, pontua o presidente. Autora de dois livros sobre a escritora cearense, o infantil A casa dos benjamins e Raquel de Queiroz & Biografia, a jornalista Socorro Acioli classifica a seleção como um ``verdadeiro tesouro`` que ajuda aos leitores a se localizar no mar de uma produção tão intensa de crônicas. ``Ela sempre obedecia à definição do gênero crônica, tratando de fatos presentes, contemporâneos e muitos se preservam atuais``, aposta. As crônicas deverão ter uma influência forte na formação de leitores na cidade, na opinião da professora da Universidade Estadual do Ceará, Maria Valdênia da Silva. Doutora em letras Universidade Federal da Paraíba, Valdênia avalia que Rachel se revela uma ótima contadora de histórias em suas crônicas e, por isso, uma porta de entrada para novos leitores. Morte, saudade, infância, juventude, tempo, juventude, política. O rol era grande. ``Os temas são muitos, mas essencialmente da condição humana. Isso faz que eles sejam atuais tantos anos depois``, indica. A publicação das crônicas é só o começo. A comemoração do centenário da Rachel de Queiroz vai mobilizar todas as mídias do Grupo de Comunicação O POVO. Três cadernos especiais serão encartados na edição impressa em abril, um documentário será realizado pela TV O POVO, um circuito gastronômico com 12 restaurantes desenhará receitas da escritora. A celebração prevê, ainda, a publicação de uma série de livros pela Fundação Demócrito Rocha. Entre eles, um estudo crítico, coordenado pela professora Fernanda Coutinho com texto de nomes como Heloísa Buarque de Holanda e Luiz Bueno. Em abril, deverá ser lançado também o livro Primeiras Crônicas, seleção especial de textos de Rachel de Queiroz publicadas pelo O POVO, acompanhadas de um texto inédito. O escrito foi cedido pela escritora e roteirista Maria Gessy, responsável pela roteirização de diversas obras de Ziraldo para a TV e para o cinema, e fazia parte de um projeto de seleção de crônicas que não foi levado adiante. O Ano Rachel de Queiroz deve contemplar, ainda, o Prêmio Literário Nacional, com o objetivo de laurear as obras de grandes nomes da literatura brasileira e cearense. Com a premiação para o conjunto da obra para grandes nomes e para escritores iniciantes. O processo de seleção é coordenado pela curadoria do projeto com a chancela da Academia Cearense de Letras. (Angélica Feitosa) "




sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010 começou

Primeiro dia do ano 2010. Saí. munida de máquina fotográfica, na expectativa de reencontrar amigos e passar momentos agradáveis. A praia estava absurdamente lotada, não conseguimos encontrar uns amigos dos meus amigos, de Teresina. De longe avistamos uma mesa vaga na beira da praia, local privigeliado com a sombrinha fechada. Corremos pra lá, fomos logo avisados pelo vizinho de mesa, que não tinha garçom atendendo aquela mesa, por que somente vieram três garçons para trabalhar. Mas teríamos água de coco à vontade, mediante compra direta ao ambulante vendedor de coco. Fazer o que? Sentamos, para conseguir um pouquinho de sombra, pois o sol estva inclemente, apesar de o dia estar nublado. Entre goles de água de coco e picolès, a conversa sobre a noite da passagem de Ano Novo. Meus amigos foram pra praia, com esperanças de passarem uma noite agradável. Sofreram muitos empurrões, isso sim. Perderam-se uns dos outros. Os salgadinhos ficaram com uns, o champanhe com outros. Não viram nada do show, somente ouviram. Voltaram pra casa decepcionados e afirmando que nunca mais passariam um reveillon ali. De repente policiais armados, revistando uns rapazes, socos pra lá, palavras de ordem pra cá. E nós morrendo de medo de bala perdida, mas não conseguimos arredar pé, paralizados que ficamos. Nessa altura a conversa girou sobre a violência generalizada que nos cerca e sobre a nossa impotência para resolver a nossa vida e a nossa necessidade de paz. Não tive coragem de tirar uma foto sequer. Estávamos com fome e fomos embora para tentar saciar a nossa fome de comida e a nossa fome de paz.
A praia? Linda e calorosa ficou pra trás... Pelo menos tomamos um banho salgado, o primeiro do ano para limpar os maus fluidos. Espero que sim..
Depois em casa, ligo a televisão: chuva, deslizamentos, mortes, tragédia. E ainda tem os mil e um acontecimentos violentos que não chegaram até mim.
Só me resta elevar os olhos aos céus e pedir a Deus que tome conta de mim e da minha vida.